30 de setembro de 2015

Dia 10 - Coelhos, ossos e, claro, cacifos



O beliche não é bem um beliche, mas graças à D.G (a quem publicamente agradeço, cheia de salamaleques), tenho, não apenas o melhor cacifo, como também o mais arrumado. Não quero com isto dizer que, por exemplo, o da D. e da N. esteja um desconcerto tal, que nem com uma arrecadação, se entende.
Nas aulas, tudo em ordem:
- Professora, sabe que me chamam coelho? – perguntou serenamente  o G., adorável como só ele sabe ser, com dois distintos incisivos.
Como me acontece amiúde, baixou sobre mim a clarividência, que também ontem me tomou, e coloco a seguinte questão:
- Porquê? – enquanto me esbofeteava mentalmente.
Indignado, mas sempre tranquilo, o G. atirou-me à cara, como um estalo:
- Oh professora, então não se vê logo?!
Pois, G., mas quando te olho, eu vejo-te. Muito para além das dentolas, como lhe chamas.
E porque não vos quero levar às lágrimas, vou deixar-me destas considerações e avançar já para o momento em que, num acesso de desespero por nenhuma das explicações que dera a propósito da matéria ter surtido qualquer efeito, emiti um som, cuja aproximação onomatopaica seria, não se assustem:
- Grrrrrrr!!!!!
- Ai pressora, não se cheteie, dizia a A.
- Já estou chateada! A seguir começo a morder-vos!
E o G., que teve hoje o seu momento alto, de forma muito calma, chamou-me e de semblante muito sério, esclareceu-me:
- Professora, (desculpem-me interromper o discurso do pupilo, mas importa referir que, dos 100 que me cabem, este foi, até agora, o único que pronunciou todas as sílabas deste nome que me chamam) mas eu sou só ossinhos! – enquanto me esclarecia, esticava os seus bracinhos franzinos.
Não contente ainda com todo este meu desempenho, apercebi-me de que tinha perdido a bolsa dos lápis. Depois de todos os que estavam na sala de professores terem batido com a mão no peito a declarar a sua inocência, decidi ir à sala onde estivera a dar aula.
- Toc, toc… ( hoje estou muito dada às onomatopeias).
- Sim…
- Desculpa, T., estar a incomodar-te, venho só buscar o meu estojo…
A T. procurou, eu também, a T. já andava de rabo para o ar, isso eu não fiz, eis que um aluno coloca o dedo no ar. Silêncio para o ouvir:
-Mas a pressora saiu da sala ao lado, é melhor ver lá.
Sorri-lhe entredentes. Agradeci. Desculpei-me. Saí.

E dou por terminado este texto. 
Recuso-me a esta humilhação em praça pública!

29 de setembro de 2015

Dia 9 - Patos, frangos, bíblias e beliches


11:45. Toque de saída. Contrariados, arrumavam o material e lentamente iam para o intervalo. Fui-me aproximando da porta, a pensar nos longos 5 minutos de descanso que iria ter. O condicional cai aqui que nem uma luva, já que o D. quis falar comigo. Pensei numa resposta rápida e eficaz que o demovesse, mas não me deu tempo, começando a disparar uma suspeita que o andava a moer há já 8 dias. O ar cauteloso e desconfiado adensou o mistério e fiquei, genuinamente curiosa. “Pressora, eu acho que é frango.” 

- Ãh?- perguntei entre a confusão e o espanto.

- Sim, pressora, não é pato! – respondeu-me, mantendo a seriedade.
Fui buscar toda a minha bagagem cultural sobre mitos urbanos (ou não) e tive este assomo de clarividência:
- Foste ao restaurante chinês? (“mas não é gato que se diz?”, pensava eu, achando que a criança estava muito perdida)
Franziu o sobrolho, encolheu os ombros, como quem diz “’Tás parva ou quê?” e esclareceu-me:
- , pressora, na cantina. Elas ali dizem que é pato, tipo, arroz de pato, mas é frango. Cá a mim sabe-me a frango!
Percebi que o assunto era demasiado sério para ser tratado de ânimo leve, apressei-me a assegurar-lhe que iria averiguar o que se estava a passar, terminando com: “aproveita os últimos minutos do intervalo!”
- Não vou ter aula, por isso é que falei consigo.
Mentalmente, dei-lhe uma carga de porrada, que só acabou com o toque de entrada. Um minuto depois.
Já na sala de professores, ao olhar para o meu cacifo, lembrei-me da D. “Tenho de lhe dizer”, pensei. De que falo eu, perguntar-se-ão. Pois cá vai: na passada sexta-feira, a D. confessou a sua culpa e arrependimento. Ouçamo-la: “Fui eu, e mais não digo, apenas que estou muito arrependida.” Não foi preciso insistir para ela relevar o que fizera. Parece que estava na sala de professores, sem nada para fazer, olhou para o meu cacifo, que é também da D.G., e decidiu baralhar todas as folhas que lá estavam, alegando que, ouçamo-la uma vez mais: “Assim podem dar as aulas uma da outra.”
Pois é, D., devo dizer-te que baralhaste as folhas da D.G. unas con las outras, pois nesse dia tinha tirado de lá todos os meus pertences. Está dito.
Ainda a este propósito, notícia bem fresquinha, parece que a outra co-proprietária montou um beliche lá no appartement. A ver vamos.
Neste momento, e porque são leitores perspicazes, já se terão apercebido de que não falo das bíblias que refiro no título. Eu confesso, estão ali só para despistar.

28 de setembro de 2015

Dia 8 - Pontualidade e moscas mortas



Gosto de entrar a meio de um bloco: desde logo, porque o corredor está vazio e posso fazer todo o percurso como uma pessoa em pleno uso das suas capacidades mentais; depois, porque vou render um colega e observar, condescendentemente, o seu nervosismo a arrumar os pertences e a desculpar-se pelo atraso, por não se ter apercebido de que já estava na hora. Que não faz mal, que acontece a todos, digo eu, o que é verdade, não confesso é o gostinho perverso que sinto. Afinal, a causa de toda a sua agitação é a minha pontualidade. “Britânica”, dirá o colega sobre mim até ao fim do ano lectivo, entre o pasmo e a ironia.
(Parecendo coisa pequena, cai sempre bem, porque assim que o boato começa é um passo até a ser a professora mais pontual da escola. Do Agrupamento. Quiçá, da própria cidade.)
Ora tudo isto seria muito bonito, se a C.R. não me tivesse trocado as voltas. Como não quer que eu ganhe fama de pontual à conta do seu atraso, deixou a porta da sala aberta. Ao ver-me aproximar, calmamente, terminou o raciocínio, despediu-se dos alunos e sorriu-me. Notei-lhe, sim, quando passou por mim, um certo ar de vitória. Eram 11h em ponto. Retribui o sorriso, claro, mas o nosso olhar engalfinhou-se, numa cumplicidade hostil.
À parte este episódio, pouco há a registar: “ Nem respirem, que estou nervosa”, vi que um aluno sobre esta associação ia colocar uma questão, só não percebi por que se calou, mal cruzámos o olhar.
O F. e a M., a quem pedi que saíssem na aula anterior, estiveram francamente bem. Participativos e muito cuidadosos, tentando manter-se na sala até ao fim, o que conseguiram com grande mérito.
O V. e o N. estavam muito agitados, parei, olhei-os, ignoraram-me, continuei parada e o V., simpaticamente, esclareceu-me:
- O N. atirou-me p’ra qui um bicho morto! – apontando para uma mosca que atravessava a mesa a toda a pressa e, depois, voluntariamente, quis parecer-me, atirou-se para o chão, numa falhada tentativa de suicídio.
Não tive oportunidade de intervir, pois antes que o fizesse, o N. quis esclarecer-me, dizendo que era uma mosca viva sem uma asa. Ao que o V. respondeu: “Ah, é a mesma coisa!”
Julguei ser o momento oportuno para explicar a importância da coerência do discurso. Neste caso, a falta dela, já que, segundo o V., uma mosca sem uma asa é a mesma coisa que uma mosca morta. O problema foi a metaforazinha. Afinal, muito se pode dizer sobre uma mosca morta, eu é que não me senti com forças para isso.

25 de setembro de 2015

Dia 7 - A travessia e a saída

8:25 da manhã,  os passos encaminham-me para a sala, enquanto o cérebro, dormente, se deixa levar.
Mas por pouco tempo.
O corredor é já adiante e há que atravessá-lo.
Estalo o pescoço, lamento as aulas de artes marciais que nunca quis frequentar e encaro o destino. São milhares de moços, acotovelam-se e gritam. O cérebro estala, cerro os punhos, e num assomo de fúria, vou dizendo: “Com licença”. O resultado é pouco satisfatório. Há que accionar o plano B: de olhar acutilante, começo a exclamar: “Queiram, por obséquio, deixar que alcance os meus sôfregos pupilos, que…” A frase deixo-a a meio, porque assim aconteceu, tal o ar de dúvida estampado no rosto de todos. Pareciam ter medo também, mas isso não posso confirmar.
Nada como dar-lhes estalos de palavras desconhecidas, pensei. E entrei na sala.
90 minutos depois repito o percurso, como não vos quero maçar, entremos em mais uma sala, para novo round. 30 alunos, um total de 60 olhos, ávidos. Pelo toque de saída. Lá começam a trabalhar, mas há um pequeno rumor que me incomoda. Não faço segredo da indisposição que me está a tomar e acrescento que posso ser muito imprevisível, quando indisposta.
Não acreditam em mim, e lá tive de pedir ao F. que abandonasse a sala. Suplicante e de olhar marejado assegura-me que não voltará a falar. Coração de pedra, as palavras do jovem F. não me comovem. Emudecidos, 58 olhos miram a minha frieza.
"Vamos continuar", e assim foi, a M. foi ter com o F. Contrariamente ao colega, quando lhe peço que saia, não protesta, não se vitimiza, apenas bate com a porta.

Mas isso foi, seguramente, porque estava revoltada com a SMS que tinha acabado de receber. 

24 de setembro de 2015

Dia 6 - A T. e a minha memória prodigiosa

Há duas aulas atrás, tive de pedir à T. que mudasse de lugar, razão simples: falava demasiado e, como estava ao fundo da sala, o meu ouvido não podia, por incapacidade, maravilhar-se com a sua eloquência.
 Mal a aula terminou, e à socapa, anotei logo no meu caderno: “ aula de 5ª, mudar a T. de lugar”, que eu cá não sou pêra doce e tenho a competência cravada na pele, qual carrapato sequioso.
Chegado o dia da grande mudança, começo a aula por verificar se todos estavam presentes, não fosse alguma alminha, ovelha tresmalhada, perder um momento tão proveitoso. Ao percorrer toda a sala, o meu olhar cruza-se, de forma rápida, com o da T., que, entre a revolta e a admiração, pergunta, com a eloquência que lhe é própria: “Fogo, a pressora nunca se esquece de nada?? ”. “Esqueço-me de tudo” ia eu a responder, mas travei a tempo.
Satisfeita com a boa figura que acabara de fazer, pedi à T. que se sentasse mesmo junto à minha mesa. Fê-lo, mas não da forma leve que o verbo insinua, antes com gestos ligeiramente coléricos, acompanhados por um suave arrojar de cadeira e um delicado atirar dos seus pertences sobre a mesa.
Terminado o drama, dei início à aula, que, não me querendo gabar, correu verdadeiramente bem.
A T., essa, esteve muito participativa: fez todas as tarefas com brio e chamava-me com frequência para me mostrar o seu empenho.
A determinada altura, fez-me sinal para que me aproximasse. A sua expressão era misteriosa e senti um certo secretismo a pairar. Percebi que a coisa era séria. Agora era só entre mim e a T.

Fui deslizando, cautelosamente (nunca se sabe do que um aluno é capaz), leves gotas de suor assomavam-me no rosto, até que fiquei mesmo junto a ela. “Baixe-se lá pressora”. Baixei-me e a T. segredou-me: “Acho que aqui ‘tou mais atenta, acha pressora?”. 
Não me atrevi a contrariá-la. 
A bem da verdade, nem seria justa se o fizesse. 

23 de setembro de 2015

Dia 5 - Agitação imobiliária


O Mercado imobiliário começa a dar sinais de vida.
Hoje, depois do burburinho dos que sonham, como eu sonhei, com um apartamento na cobertura, reparo nisto:

“ALUGA-SE 
só até final de julho
bem localizado"
Não me admiro nada que, em breve, estejamos todos na cobertura do prédio e as caves fiquem à espera dos turistas. Há-de ser bonito… tudo ao molho, e começa a festa:
- Ai chega p’ra lá as tuas bolachas que os meus cremes têm de caber aqui.
- Era o que faltava, tenho tanto direito quanto tu.
- Ah, mas eu fui o 3º a chegar.
- Lá porque fui o 6º, tenho os mesmos direitos.
- Pois é, eu fui o 1º, e tenho o fio dentário em cima do verniz da colega do lado, que está sem espaço…
Eh gentinha sem berço!
Depois destas considerações menos cristãs, entro na sala de professores e encontrei, novamente, a presença do Senhor: A N., de livro sagrado em punho, lia um Salmo “ao calhas” a cada um dos que por ali aparecia.
Assim, ungida, vim para casa e agradeci ao Sr. Ministro ter-me colocado numa escola tão sadia.

22 de setembro de 2015

Dia 4 - O aviso e a presença divina


Aula de teste diagnóstico. A turma, aplicada e silenciosa, resolve as questões propostas. 

Um aluno coloca o braço no ar. Aproximo-me, munida de toda uma vasta bagagem de conhecimento e ansiedade, por temer não estar à altura para lhe dar uma resposta.

- Precisas de ajuda?
- Professora, é só para avisar que não sei fazer nada desta parte.
- Obrigada pelo aviso, poderia eu não reparar que não tinhas feito nada… o avisozinho é sempre bom.
Terminado o teste, toca o sino e eu, que ultimamente sinto o chamamento do divino, exclamo, de coração aberto:
-Alunos, ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.
Eis que, entre um arrojar de cadeira e um pôr de mochila ao ombro, soa uma voz irmã:
- Graças a Deus.
Era o A., entre o místico e o descarado.
Amém.

21 de setembro de 2015

Dia 3 - O cacifo

Revelo o meu sonho secreto de ter um apartamento na sala de professores. É um sonho como qualquer outro, muito motivado, confesso, pelas dores de costas que os meus 18 anos de vida me começam a dar. 
De imediato, D. faz-me um convite ansioso: "Ai, partilha-o comigo!". Velha loba solitária, não tinha colocado a hipótese de dividir uma casa fosse com quem fosse. No entanto, sendo na cobertura do prédio, não implicando, por isso grandes esforços dorsais, lá anuí, deixando, bem claro, no entanto, que não prescindia de uns cortinados e quiçá de uns napperons, assim à francesa, que eu sou chic! 

Enquanto isso, o colega L. também manifesta a sua disponibilidade para partilhar a casa comigo, alertando-me, no entanto, que a sua fica praticamente na cave, o que implica um andar de "rabo p'ró ar, que talvez não fique bem a uma senhora de boas famílias, como é o meu caso.

Optei pela primeira oferta, com as condições mencionadas, que foram aceites de imediato, um privilégio para a D, ela sabe, e sou, a partir de hoje a feliz co-proprietária do melhor cacifo da sala de professores da minha escola.

18 de setembro de 2015

Dia 2 - A ânsia

Sem grandes aflições. 
Atropelam-se a entrar na sala. Serenamente, trovejo: "tudo lá para fora, se faz favor" ( nunca perco as boas maneiras). Ouço uma voz familiar "oh, eu já sabia" e, de imediato, algumas indignadas: "e não avisastes???". Depois, cordeirinhos, entram e sentam-se calmamente. Aproveito então para lhes dizer o quão apreciava aquela imensa ânsia por ter aula, mas acrescentei que, ou moderavam o seu amor pelo português, ou cedo a relação entraria em desgaste. Tudo sobre rodas, portanto.


17 de setembro de 2015

Dia 1- a expectativa

Sem incidentes. 
Portei-me bem, não fui mal educada com os moços, não refilei do trabalho, fui simpática com todos os funcionários, não agredi os colegas ... isto promete!