28 de setembro de 2016

A rota dos supermercados e cenas fixes


No 8º ano há uma espécie de repetição de conteúdos de 7º, que têm de ser abordados e eu , como sabem, abordo tudo de fio a pavio. Era o que faltava deixar conteúdos por abordar!
Bom, lá fui eu para a sala, mas não fui sozinha, que hoje é 4ª feira, logo dia de parceria com o meu distinto colega J.S.. 
Liguei o computador, o projector, projectei o "powerpoint" e os pequenos queixaram-se da cor da letra, que se via mal, que se estavam a baralhar, que praticamente já estavam a ficar cegos. Eu cá faço tudo pelo bem estar dos meus alunos, vai daí, congelei a imagm e, enquanto escreviam uma resposta, fui alterando a cor das restantes, para que as queixas acabassem. Ao fazer isto, como sabem, no ecrã aparece "congelamento".
Até aqui, nada de novo. Perguntar-se-ão, por que razão estou então a escrever esta crónica se não tenho nada de novo para vos contar. Ora lá era isso possível! Tenho, pois, e muito!
Este calor de Setembro está a acabar com qualquer pessoa, vai daí, o colega J.S., que não só zela pelo bem estar dos alunos, como de todas as pessoas em geral, vendo o meu afogueamento, perguntou, de forma séria e preocupada:
- Antónia, queres que ligue o ar condicionado?
- Ai, sim, J., por favor! - respondi com o mesmo ar grave e sóbrio.
E eis que se levanta o burburinho, que ganha voz pela M.
- Ah - a expressão era de surpresa genuína - a sala tem ar condicionado?
Eu nem tive tempo para elaborar uma resposta, pois o D., disse logo:
- Não estás ali a ver "congelamento"?
Eu que não sou pessoa de riso fácil, gargalhei suavemente, imitada, de imediato, pelo colega J.S. e pelos jovens que entenderam a piada do D.. É claro que há sempre um ou outro que pergunta "por que é que estão a rir? Não percebo!". Depois de explicada a piada, como não querem dar parte fraca, lá comentam com um certo arzinho de desdém: "Pff, não tem graça!"

Voltando tudo à normalidade, já o projector desligado e os moços todos com uma ficha de trabalho sobre a notícia, vá de fazer perguntas:
- Ora bem, jovens, já vimos o antetítulo, o título e agora, como se chama este primeiro parágrafo?? - questionei eu, segura das correção das respostas, pois é uma matéria do ano anterior.
- É lidl! - disse o L., com firmeza e confiança.
- Pois, e o resto da notícia chama-se Aldi - disse eu, que sou cliente de ambas as superfícies e considero que uma não fica atrás da outra! 
Lá houve uns risinhos, mas eu cá pus logo ordem naquilo e, de forma bem audível, quis acabar ali com as piadolas:
- Jovens, vamos lá ver, o primeiro parágrafo é o "lead", e vai até onde?
- Até ao Continente. - o tom foi discreto, mas do mais malandro que possam imaginar. A voz, essa, foi do G., de olhos sorridentes.
Uma vez mais, abafei a gargalhada, mas sorri-lhe com o coração cheio. É claro que não o repreendi, desde logo, porque foi uma cartada muito bem jogada, depois porque o G.não tem sorrido nos últimos dias e ele precisa. Muito.

Já quase no fim da aula, o L. disse assim:
- A prof. é daquelas que faz cenas fixes na centésima lição?
- Eu não costumo , mas só por teres dito centésima, vou fazer!
E pronto, lá ficou agendada uma "cena fixe". Seja lá isso o que for...

22 de setembro de 2016

O pressor P. e os paradoxos


A aula poderia ter sido muito diferente: já me estou a ver, toda empertigada, a perguntar aos petizes se sabiam o que era aquele palavrão, eles, inicialmente pouco interessados, eu a empertigar-me mais, eles a ficarem curiosos, eu, que já teria empertigado tudo o que havia para empertigar, colocaria uma certa expressão de erudição, eles, pasmados com a sapiência que sabiam que iria sair mal abrisse a boca, eu a percebê-los "no ponto", aí  atiraria qualquer coisa como trata-se de uma impossibilidade blá blá bá... e remato com blá blá blá, pois isso teria sido a minha aula. Mas não foi. 
O que aconteceu foi isto:
- Então e que palavra é que foi aqui empregue totalmente fora de contexto e que nos mostra que a personagem não dominava a língua portuguesa?
- Paradoxo, pressora! - respondeu logo o D., que é rapaz muito despachado.
Resposta após a qual entrei eu:
- E, sabeis, jovens, o que é um paradoxo? - já a começar a empertigar-me.
- Oh, é uma realidade impossível - disseram dois ou três, com um ar de franca naturalidade, que se  me recolheu logo o empertigamento.
Quis, de imediato, saber quem ousara ensinar-lhes uma tal coisa:
- Mas quem é que vos anda a ensinar isso?
- O pressor de Físico-Química! - novamente em coro.
- O professor de Físico-Química, quem é que é o professor? - perguntei, já a antecipar a resposta.
- O pressor P. - responderam.
- Pois - disse eu.
 E assim acabou aquilo que não chegou a ser, mas que, se fosse, teria sido coisa digna de registo nos anais do ensino do Português.

Nunca me enganou esse pressor P. , com o seu ar de Gedeão do séc. XXI. É claro que isto foi um pensamento que não partilhei com os moços, não fossem eles pensar que estava a chamar nomes feios ao professor.

18 de setembro de 2016

A sorridente desilusão da S. ou Junho de 2017, aqui vamos nós!


De volta, após as férias, para mais 9 meses de alto risco. Que o parto seja fácil e chegue esse futuro "perfeitinho e com saúde", que é o que mais importa. Por ora, apenas o apontamento de que é bom voltar para onde nos sentimos bem. 

As aulas de apresentação decorreram sem grandes sobressaltos. Afinal, conhecemo-nos quase todos do ano anterior. Umas caras novas, aparentemente tímidas, de olhos abertos e semblante desconfiado. Afinal, sou professora, e nunca se sabe do que é que sou capaz. 
- Chamo-me Antónia Mancha e sou a vossa professora de Português. Há quem diga que sou simpática, mas não acreditem no que vos dizem - disse eu, a armar-me, perante a desconfiança daqueles que ainda não me conhecem e o sorriso descarado dos meus jovens companheiros de jornada. 
O caso mais marcante deu-se na 6ª feira. Passada que era já meia hora desde o início da aula, eis que se ouviu bater à porta. Que entrasse, disse eu. Aberta que foi a porta, surgiu a S., uma menina diferente com quem já trabalhara no ano anterior. Muito atarefada, entrou e, ao aperceber-se da minha presença, com um largo sorriso, atirou esta pequena pérola:
- Olha, 'tava à espera de outra prexora e xaiu-me você...
Contive-me, que eu cá não gosto de alaridos e, com um ar sério, respondi:
- Desculpa, S., é o que se pode arranjar...
Continuei a aula e as seguintes e, já a encaminhar-me para o fim-de-semana, cruzei-me com um grupo de jovens, no qual estava uma ex aluna, a B., que aos gritos, como é seu hábito, disse:
- Ai pressorinha, tenho tantas saudades suas, queria ter aulas consigo outra vez!
Eu cá nem tive tempo para responder, mas se o tivesse tido não teria uma reposta tão terceira como a de um colega que a acompanhava:
- Olha, tivesses passado!
Eu cá limitei-me a sorrir e continuei o meu caminho rumo ao fim-de-semana que me aguardava.