22 de outubro de 2016

De Directora para Directora


A vida é um mistério insondável, uma travessia íngreme, árdua, injusta. E saibam que se o afirmo, é porque sei do que falo: tenho este ano uma direcção de turma. Mas também tem o reverso, esse alento que nos arranca da modorra e nos impele ao desafio, e que faz crescer em nós uma vaidade saudável, afinal, sou directora de alguma coisa.
Tento, assim, como directora, levar a bom porto os barcos tormentosos que se desnorteiam no mar encapelado que é a vida escolar. Cresce em mim uma missão de faroleira e vá de orientar os barqueiros para as amenas costas do bom comportamento. É árdua a tarefa, extenuante, mas, paulatinamente, vou recebendo pequenas pérolas como a que passo a descrever.
Acompanhei, com a colega C.R., a turma ao Centro de Ciência Viva. No entanto, estive com os alunos apenas durante o percurso, tendo-lhes pedido, antes de os deixar, que se portassem bem, que, pelo menos, fora da escola, não me fizessem sentir envergonhada. É claro que este pedido é apenas fruto da minha extrema timidez, não que se trate de uma turma agitada, mal comportada, faladora, desrespeitosa, pouco trabalhadora e imatura, que não tem particular apetência para acatar pedidos ou cumprir regras.
Depois de muitas recomendações, a M.V. lá respondeu, com um sorriso descarado “Sim, mãe!”, como quem diz, deixa-te disso, que o que havemos de fazer, sabemos nós.
Pois bem, ontem, à saída da aula com outra turma, estava a minha.
-Pressora, pressora , portámo-nos bem!  - disseram em coro, daí a dicção estar afectada.
- Pois, já me disseram, fiquei contente! – comentei, séria.
E diz logo o D.S., com o seu jeito de homem feito em corpo de 13 anos:
- Oh, tã que jête nã pertarmos, melhér!

Soltei uma gargalhada interior e pensei que isto de ser directora é bom, embora não me importasse que quem de direito aceitasse a minha demissão. 

20 de outubro de 2016

Pares fofinhos


A M.E. hoje disse assim:
- Professora (quando não está nervosa, a dicção já lhe sai perfeitinha, perfeitinha), podemos fazer a ficha a pares?
- Sim, não me importo, desde que trabalhem… – respondi.
- E podemos fazer pares de 4?- perguntou, com o ar mais inocente que se possa imaginar.
Houve por momentos um silêncio, entre o pesado e o constrangedor, acompanhado de expressões faciais que denunciavam o impasse em que se quedaram os nossos cérebros. Estaria a desafiar-nos? Seria aquilo fruto de alguma súbita indisposição?
Eu cá não respondi, mas lá que me ri, isso ri, embora de forma pedagógica, naturalmente.
- Oh pressora! – respondeu. Note-se como a dicção se lhe afectou, em virtude o nervosismo por que foi tomada.
E tudo decorria dentro da normalidade possível, quando, a propósito de verbos auxiliares, escrevi um exemplo no quadro: “Tenho comido muito ultimamente”. Mal acabava de o fazer, já o A. entornava esta pérola:
- Por isso é que a professora ‘tá gorda!
- Oh A., e um eufemismozinho não cairia aí melhor? – disse logo eu, que não perco uma oportunidade para testar os conhecimentos dos pequenos. Era isso, ou dar-lhe um estalo e ordenar-lhe que fosse chamar gorda a outra.
Prossegui com:
- E já agora sabem o que é isto de eufemismo, não sabem?
A M.E. deu a resposta de que nenhum gramático ainda se lembrou:
- Oh, é aquele que é fofinho!
- Ora que bela definição! – respondi. E, professoral, ainda com ganas de me ir ao A. e dizer-lhe a quem é que ele podia ir chamar gorda, lá lhes disse que quando me quiserem chamar gorda, coisa disparatada, vinquei, que digam antes que sou anafadinha, que sou cheiinha, terá, para eles, o mesmo efeito, com a grande diferença de eu quase gostar.
Mas ouve-se agora muito que “nada é por acaso”, e esta intervenção do A., a quem não sei se não terei de dar um valente enxerto de porrada, serviu-me para futuramente inovar quando estiver a dar a definição de eufemismo: recurso estilístico que torna tudo fofinho. Até as festinhas que farei nas costas do A., com uma varinha de marmeleiro.

18 de outubro de 2016

FURADORES E BACTÉRIAS



Mal entrei, a M.E., que dias antes, também no início da aula, se pusera, muito séria, à minha frente, querendo saber se estaria com febre, situação que cientificamente para mim não tem segredos e que avaliei com uma mão na testa da pequena e uma frase toda ela revestida de conhecimento “ Nã tens fébre nada, vais masé sentar-te!” , frase esta, que lhe deu uma segurança tal, que a pequena, se estava adoentada, lhe passou a enfermidade de imediato. Ora dizia, mal entrei, a M.E., com o seu ar mais dócil e ingénuo, veio ter comigo para me colocar esta pergunta:
- Professora (sim, a dicção já melhorou), tem aquela coisa que faz furos em folhas de papel? – o ar era sério e dócil e nas mãos tinhas umas quantas folhas…
Olhei-a com um certo pasmo, enquanto continha a risada que não podia soltar, e respondi, pedagogicamente, claro está, que o objecto que demandava dava pelo nome de furador e que, embora normalmente fosse utilizado para furar folhas de papel, seguramente também furaria a folha de uma oliveira, e quem dizia oliveira, dizia castanheiro, enfim, fazia furos.
Pareceu-me esclarecida, tendo soltado um
- Oh, pressora! – note-se que, dado o nervosismo, a dicção se lhe alterou.
Ora mal sabia eu que o melhor estava para chegar.
À tarde, mal pousei o Mancha Mobile, vem logo o L. B., muito despachado e com um largo sorriso:
- Oh pressora, já falou com o pressor de Ciências?
- O professor P.C.? Sim, falei de manhã, porquê? – perguntei, curiosa e achar que aquilo trazia água no bico.
E o L.B., desbocado, toca de me elucidar:
- O pressor tava a passar um powerpoint e perguntou-nos se não tínhamos nada para dizer…
- Sim… - respondi a tentar perceber onde aquilo ia dar.
Quem continuou foi a C. R., que originou uma grande contrariedade ao L.B..
- Sim, pressora e a gente perguntou ao pressor se ele queria que a gente dissesse que o powerpoint estava bonito, mas a gente disse que só os da pressora é que estão bonitos!
E não se pense que a C.R. disse isto por dizer, pois a grande maioria da turma abanava afirmativamente com a cabeça. É certo que se lhe notava uma espécie de ironiazinha, que eu ignorei por não me interessar.
- Muito bem, jovens alunos. Estiveram muito bem! – disse eu, francamente agradada, por ver tamanha espontaneidade e reconhecimento em todo o investimento que coloco nas minhas apresentações. Aliás, que lhes caia o céu em cima das cabeças, se alguma vez os treinei para tal resposta!
- Ah, e pressora – a voz é novamente do L.B. – o pressor P.C. disse para dizermos à pressora que os powerpoints deles são mais bonitos.
Irritei-me.
Irritei-me, naturalmente que sim. E tomei uma medida drástica. Eu, que não sou de “leva e traz”, disse logo aos moços:
- Então digam lá ao professor de Ciências que a professora de Português o desafia para um concurso de powerpoints. Mas uma coisa séria, com júri e tudo.
É então que a C.R. profere:
- Os da pressora são melhores. Os do pressor é só bactérias!

Duvido que, perante este facto, o professor de Ciências se atreva a aceitar o desafio que lhe propus.

12 de outubro de 2016

Aula sobre processos irregulares de formação de palavras


Isto porque o tempo escasseia, a crónica de hoje é de ontem também. Peço-vos atenção, que a materiazinha assim o exige. Ora vamos à lição sobre empréstimos. Sossegue o caríssimo leitor, que nada irei pedir e aviso, desde já, que não me encontro disponível para emprestar seja o que for. Estes de que vos irei falar, e de que falei aos meus jovens alunos, são linguísticos. Começa a aula, siglas p’ra cá, acrónimos p’ra lá e chega, então, a vez dos ditos:
- Sabem uma coisa? Ontem fui ao “shopping”, bebi um “cappuccino” e comi um “croissant”, depois comprei um “abat-jour” e mais tarde comi uma “pizza”!
Era vê-los a olhar para mim. Silenciosos, mas a perguntarem-se o que teriam eles a ver com as minhas saídas.
- Nada estranho?? – perguntei.
Nada.
- Oh moços, ouçam lá! – e toca a repetir todo o relambório -  Não há aqui nada que vos desperte a atenção??
- A pressora foi ao shopping só para beber um ”cappuccino”??? – perguntou a M., com um ar de franca censura. Que desperdício de tempo e combustível, estaria a petiz a pensar.
Quase me senti frustrada, mas eu cá não me deixo abater e se a M. só reteve o “cappuccino”, seguramente, foi porque não gosta de “pizza”.
Já hoje, com outra plateia, novamente às voltas com acrónimos, truncaturas e outras coisas que tais, eis que surgem os empréstimos. Ouçam-me:
- Sabem uma coisa? Ontem fui ao “shopping”, comprei um “abat-jour”, depois bebi um “cappuccino” e comi um “croissant” e mais tarde comi uma “pizza”!
- Já sei – dizia a M.M. – é uma enumeração!
Que sim, dizia eu, que era uma enumeração, mas que não era bem isso o que eu queria, já que estava a falar de processos de formação de palavras.
- É tipo, ‘tá a dizer o que fez! – respondia o L.S.
E eu lá repetia, enfatizando os empréstimos, mas nada.
- Ouçam lá bem! – e repeti tudo de novo - ontem fui ao “SHOPPING”, comprei um “ABAT-JOUR”, depois bebi um “CAPPUCCINO” e comi um “CROISSANT” e mais tarde comi uma “PIZZA”!
Ainda mal tinha terminado e já o J.M. respondia :
- Oh, ‘tá sempre a comer!

Quase esbofeteei o pequeno. Lá porque é magro não tem de me humilhar perante os colegas, por causa dos meus quilos a mais. Mas vez disso, ri-me, sentindo-me privilegiada por ter a profissão que tenho embora, mentalmente, tenha agendado a data para o início da próxima dieta.