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30 de novembro de 2015

DIA 55 - FIGURAS QUE UMA PESSOA FAZ

A aula decorria normalmente, um está calado aqui, um estão a entender ali, eis que se ouviu o toque de um telemóvel. Francamente indisposta, aumentei o volume da voz, para dizer o seguinte:
- O dono do telemóvel vai já desligá-lo, nem sequer quero saber quem é. Desliga-o e acabou-se!
Devo referir que o tom era altamente profissional, como sempre, claro.
O telemóvel continuava a tocar, ao que perguntei:
- É preciso chatear-me? - isto já com a aula parada e no rosto traços verdadeiramente ameaçadores.
Foi então que o jovem H., disse:
-Pressora, mas o som vem do Mancha mobile!
- Ya! - disseram os outros alunos. Em coro.
- Ai desculpem, desculpem, desculpem... - palavras acompanhadas de uma corridinha do fundo da sala até à minha mesa.
Ouvi logo o A. a dizer:
- Falta disciplinar para a pressora!
Ia dizer que sim, que eu merecia uma falta disciplinar, mas o G. nem me deixou abrir o bico. Disse logo:
- Népia, como é a primeira vez, a gente dá uma abébia à pressora.
E assim acontece na minha sala de aula.
Obrigada pela abébia, turma.

26 de novembro de 2015

DIA 53 - LIÇÃO DE LITERATURA: IRONIA E HIPÉRBOLE



Hoje dei por mim a observar os meus alunos a trabalhar. Lá estavam, com um ar que parecia de concentração. Um ou outro lá me chamava para esclarecer alguma dúvida, e pouco mais... vai daí, senti que estava na hora de atirar ao ar uma ou outra palavrinha e saiu-me um breve comentário:
- Muito se trabalha aqui!
- Isso é ironia, pressora!, respondeu o J., que agora parece andar ao desafio com os colegas a ver quem sabe mais recursos estilísticos.
- Bom, até nem estava a ser irónica... - disse-lhe.
Continuaram, e eu também:
- Ponham os olhos no D. E., o exemplo de um aluno concentrado e trabalhador! 
A risada lá surgiu e que sim, que neste caso eu estava mesmo a ser irónica, que não havia engano. 
- Claro que se a pressora dissesse isso em relação a mim, não seria ironia. - disse-me o D., com um largo sorriso manhoso.
- Pois não, seria uma hipérbole! - respondi-lhe, não contendo uma sonora gargalhada.
- A gargalhada da pressora tem mais piada do que as piadas que diz! - palavras da M.E., que me caíram como um estalo.
- Ya! - concordaram os restantes.
Percebi que tenho de voltar a falar na hipérbole, a ver se percebem as minhas graçolas.


25 de novembro de 2015

DIA 52 - LIÇÃO SOBRE VERBOS - 2ª PARTE


Hoje, uma vez mais, falei sobre verbos. A outra audiência. Muito atenta, por sinal. Vai daí, lá vêm os regulares e os irregulares. E vá de dizer aos moços que há também uns que se chamam defetivos, informando-os de que estes têm uma conjugação incompleta e dando-lhes vários exemplos. Que sim, que estavam a entender tudo. Que estava tudo muito claro. E acho que estava, pois o H., com uma expressão professoral, referiu:
- Ah, então são verbos defeituosos!
Eu cá nem tempo tive para intervir, isto porque o V., com um ar de quem já tinha percebido isso há muito tempo, respondeu ao colega:
- Claro, não vês que até começam por def?
Ante a turma, que estava a achar tudo muito normal, só me atrevi a dizer:
- Olhem moços, se dessa forma for mais fácil memorizarem o nome, que assim seja!
Quando não os podemos vencer...

24 de novembro de 2015

DIA 51 - LIÇÃO SOBRE VERBOS

Comecei a aula com verbos. Depois dos regulares e irregulares, surge o pedido:
- Jovens, conjuguem o verbo colorir no presente do indicativo, se faz favor! 
- Eu coloro... ãh? - reagiram os jovens à primeira tentativa, ainda confiantes de que conseguiriam. 
Já impacientes, que é coisa que lhes acontece com alguma frequência, começam a dar sinais de desistência:
- Oh pressora, isto não faz sentido! - diziam-me uns quantos. Nem tempo tive para a resposta, já que a sala estremeceu, com o grito de descoberta do W.
- JÁ SEI! É EU PINTO!
E assim termina esta lição.

23 de novembro de 2015

DIA 50 - DESAMORES, FINADOS E BURROS



Hoje falou-se de eufemismos. E vá de tentar que os moços descobrissem, e vá de dar uma ajuda, e vá de insistir, até que, o G., muito despachado, como só ele sabe ser, se saiu com esta pequena pérola:
- Oh pressora, isso do eufemismo é o mesmo que, tipo, eu andar com uma rapariga e querer acabar com ela e em vez de lhe dizer “ - Não quero saber de ti para nada…”, dizer , tipo, “Ah, eu não te mereço, tu não tens culpa nenhuma, mereces alguém melhor do que eu…”
- Isso! Isso mesmo, G.! – respondi eu, satisfeitíssima por o pequeno ter dado uma demonstração clara de ter entendido tudo muito bem.
Ora, a A. não se quis ficar atrás, e vá de dar também provas de toda a compreensão que se abateu sobre ela:
- Pressora,  – dizia-me – é assim, tipo… a minha tia ‘tava… quer dizer, a minha avó morreu, não é?
- Não sei… -respondi entre o lamentar o desaparecimento da senhora e o tentar perceber onde estava a jovem A. a tentar chegar.
- Sim, pressora, morreu! Mas, tipo¸o meu pai quando chegou a casa disse à minha mãe, em vez de “ela morreu”, disse tipo “ A tua mãe finou-se”! – esclareceu a A., terminando com uma estrondosa gargalhada, que os outros pequenos iam começar a acompanhar, mas que estancaram, depois de se aperceberem de que eu não me estava a rir.
- Certo, A., claramente entendeste o que é um eufemismo. – disse-lhe. Gostava de ter comentado que não entendi a referência à tia, mas achei que seria uma longa conversa, que exigiria um tempo de que não dispunha.
Ainda na mesma aula, a determinada altura, percebi que não me estava a fazer entender… aliás, o F. até pediu:
- Poderia ser mais explícita, pressora?
Eu queria que chegassem à ideia de juventude, vai daí, saiu-me uma questão inocente:
- Reparem, eu tenho 39 anos, vocês têm 12, então, em relação a mim, vocês são o quê??
- Burros, pressora! – foi a resposta.
Importa dizer que veio em coro.

São uns queridos, os mocinhos…

20 de novembro de 2015

DIA 49 - DE TUDO UM POUCO, A PEDIDO DA D.G.



Já vou com uns dias de atraso, bem sei, e a minha colega de appartement bem mo fez lembrar hoje.
O diálogo, à semelhança do que acontece diariamente com várias pessoas, decorreu com toda a normalidade. Possível. Com toda a normalidade possível, pois quando se trata de conversar com certas e determinadas pessoas que eu cá sei, e que são muitas, não vá já alguma começar com “De certeza que não está a falar de mim…”, nunca se pode almejar um alto nível de normalidade.
O intervalo era o das 10h. A colega D. por ali cirandava a dar dedos de conversa, eis que se aproximou e se encostou ao balcão lá da sala de professores, que neste intervalo faz de taverna, mas daquelas chiques, não se pense que anda ali gente a cuspir cascas de tremoços para o chão. Nada disso. Ora a D. chegou, e eu, simpática, como sempre, não tenho culpa deste dom que nosso senhor me deu, perguntei, como quem espera uma resposta afirmativa:
- Olá, D., tá tude bém?
O sorriso foi largo e a resposta foi, perdoem-lhe a gritaria:
- NÃO!  - respondeu,
- Melhér, o que tens tu?
- Por que é que não tens escrito? Saio da escola à noite (a colega D. trabalha muito), vou à varanda fumar um cigarrinho, ligo o Face, vá de procurar e… nada!
- Eu não tenho tido tempo…
- Achas que isso é razão para não escreveres? E eu??
Levei a tarde toda a tentar encontrar um bocadinho para escrever, p’ra ver se a mulher se cala. E cá estou.
A semana decorreu calmamente.
Tenho um trolley, chama-se “Mancha mobile”, ou “Mancha móvel”, dependendo de quem o chama. É bonito e faz furor. Tanto, que hoje de manhã ao percorrer o corredor, um jovem aluno deu-lhe um pequeno toque, virei-me de imediato e a criança, pálida, desfez-se em desculpas. Gostei.
Além disso, sempre que entro na sala, a turma que o baptizou faz questão de me cumprimentar. A mim e a ele. É mais ou menos isto:
- Olá pressora! Olá Mancha mobile!
Atravessar a ponte começa a ser uma aventura para os peões, tal a quantidade de carrinhos destes que andam a rolar pela escola. E mais virão, até porque o colega J.D. foi ontem avistado a fazer uma demonstração das potencialidades do seu trolley a vários outros colegas, que estavam estarrecidos. Parecia aquilo uma reunião da Tupperware. Coisa bonita!
A D.ª F. garantiu-me que já falou com um sr. Engenheiro no sentido de criar uma rampa ao lado das escadas, para que possamos subir para a sala, sem ter de recorrer ao elevador, que dá um certo aspecto de sedentarismo, coisa de que nós, possuidores de trolleys, não somos praticantes.
O V. é já o primeiro elemento júnior do TecnoRodas, Clube de Trolleys da Escola Básica Tecnopolis, pois também já tem o seu trolley. Segundo me disseram, o N. também quer um.
É claro que a tendência é evoluir e até já há quem ande a dizer que, bom, bom, era ter um telecomandado. São as vozes da inveja. Mas lá que era giro, era giro!
O V. mostrou logo o seu trolley à colega L. C., dizendo:
- A pressora também faz parte do TecnoRodas??
A colega não se ficou, inchou e respondeu:
- Sou membro fundador, V.!
Até a estou a imaginar, sem caber em si de vaidade.
Quanto aos cacifos, tudo anda muito calmo. Apenas a colega D. deixou um aviso, que atirou para o ar, mas que percebi que era para mim:
- Já ando farta daquele menino da lágrima!
- Toca-lhe! – pensei eu. Só não lho disse, não fosse ela mexer na criança e eu ter de me aborrecer deveras, que não seria coisa bonita de se ver.
A D.ª C. também me disse que o Sr. D. lhe tinha dito que, se calhar, quem me ratou as bolachas foi um rato. Eu cá acho que não. Eu até tenho praticamente a certeza de quem foi…

Por ora não conto mais nada. Tentarei voltar na segunda-feira.  

11 de novembro de 2015

DIA 42 - TECNORODAS - A ROLAR CONTRA AS DORES NOS COSTADOS



A escola onde trabalho é, como já terão percebido, uma escola de gente muito sã. Mentalmente muito sã. A parte física é que anda toda descadeirada. Ele é costas, ele é vesículas, ele é tendinites, ele é músculos... enfim, é todo um manancial de maleitas, que aquilo, às vezes mais parece a esquina do Posto Médico lá da minha terra, onde os mais velhos se reúnem para o sobejamente conhecido desafio "eu tenho mais dores que toda a gente". 
Ora, aqui e ali, começaram a aparecer umas mochilas com rodas, vulgo trolleys , que me foram despertando a atenção. Comecei a perceber que o número destas geringonças estava a aumentar. Mas há assim tanta gente com problemas nessa escola?, perguntar-se-á o estimado leitor. A resposta é inconclusiva, pois, parece-me, há gente que, só para ter uma destas mochilas rolantes, começou a sentir pontadas no corpinho todo. Ora, se os outros têm pontadas, o que sou eu a menos que eles para não as sentir também. Vai daí, também comprei um trolley.
Estreei-o hoje. Enquanto deslizava pela sala, eu e o trolley, o A. perguntou: 
- Oh pressora, mas isso agora é moda cá na escola?
Pela questão do petiz, dá para perceber a quantidade de bichos destes que andam a rolar pelo corredor.
Perguntei à turma que nome lhe devia dar. Ouvi vários, mas o do J. foi o que mais me agradou: 
- "Mancha mobile", pressora!
Nisto, tive uma ideia, daquelas boas: pedir aos moços que, num papelinho, escrevessem um nome, para que eu depois pudesse escolher o melhor. Assim foi, e assim que me decidir, haverá uma crónica, tipo cerimónia de baptismo.
E o leitor não acha estranho, haver tanta gente com um trolley e não se formar logo uma associação, ou um clube, ou outra coisa qualquer, que dê seriedade a este movimento? Naturalmente, já pensámos, de forma ponderada e séria, nesse assunto. Foi na ponte, entre um ai que não me apetece ir dar aula e um bora lá mas é!, que a coisa se decidiu. Veio da L.C., o nome. E o nome é : TECNORODAS.
Sim, na minha escola formou-se o clube de trolleys, porque na minha escola dá-se importância às coisas importantes. E sim, já conseguimos o patrocínio do colega L., para uma corrida no autódromo. E eu cá já me estou a imaginar, na linha de partida, a olhar para os olhares ansiosos dos meus colegas e eles a olharem para o meu olhar competitivo e todos a sentirmos a adrenalina do momento e eis que se ouve o tiro de partida (será a N., com a sua pistola de fulminantes) e todos a rasgar as curvas, rumo à vitória.
Brevemente será agendado um beberete para os membros do clube, que decorrerá na sala de professores, sob o olhar de invídia de todos aqueles que não pertencem a este grupo vanguardista.
Tenho cá para mim, que sei qual é a prenda de Natal que muitos destes colegas irão pedir. E peçam, sim, e venham, em Janeiro, com os vossos trolleys, para , juntos, rumarmos em direcção ao pôr do sol, qual cowboys do conhecimento, destemidos, e corajosos a dizimarem as contraturas e as tendinites. 


10 de novembro de 2015

DIA 41 - AS LIÇÕES DE "ALGARVIE" DO A.

Aula sobre pronominalização. Explicações iniciais. Dizia eu havia pronomes que desempenhavam determinadas funções e que o pronome se colocava aqui ou ali, e que havia excepções e vá de muitos exemplos, até que escrevi a seguinte frase:
O João bebeu o sumo.
Toca a pedir que substituíssem o Complemento Directo por um pronome. 
Ainda mal a questão tinha sido formulada, já o A., o jovem estrela deste diário, estava de olhos muito abertos, aos saltinhos na cadeira, com o braço esticadíssimo, a pedir a palavra:
- Fica O João bebeu-o. Com hífen, pressora!
Vá de dar reforço positivo ao pequeno, pela excelente prestação:
- Muito bem, A.!
Começo então com um relambório acerca da questão seguinte, que era muito difícil, que era só para gente de barba rija, que até era moça para dar um 5 a quem soubesse a resposta:
- Então e se fosse um algarvio a fazer a pronominalização? Como é que ficava?
- *O João bebeu ele, pressora!
Era novamente o A., com um ar de indescritível satisfação.

9 de novembro de 2015

DIA 40 - O GÉNIO DOS REBUÇADOS


As aulas decorreram sem grandes tumultos, o que não é sinónimo de não haver o que contar, claro.
No apoio da manhã, perguntei aos três alunos que o frequentam se haviam trazido o caderno de atividades para a aula, que aconteceria dali a hora e meia. Apenas o M. o trouxera. Pedi-lho para fazer umas copiazitas das fichas de trabalho. A M. perguntou-me o porquê de tal medida, ao que lhe respondi que estava a evitar a marcação de faltas de material.
Já na aula, chegado o momento da resolução dos exercícios, 10 alunos precisavam das cópias que havia tirado.
- M., percebes agora a razão de as ter tirado?
Que sim, que percebia e agradeceu. Ao que questionei a turma:
- Não têm nada para me dizer?
- Obrigado, pressora! – responderam em uníssono. Não foi bem em uníssono, porque o H., como é hábito, ainda não tinha percebido de que é que se estava a falar.
- Não, jovens discípulos, não é isso. Eu faço uma breve introdução: hoje de manhã consegui adivinhar o número de alunos que não traria o caderno de atividades. Então, o que têm para me dizer?
Confesso que receei uma resposta do género “A pressora é bruxa!”, vá lá que me safei e o H., que finalmente apanhara a carruagem, respondeu com um belo eufemismo:
- A pressora é adivinha!
- Não! Também não!
É então que o T. chega à resposta:
- A pressora é um génio!
- Isso mesmo, T., muito bem! – respondi eu com grande satisfação, que foi abruptamente interrompida com a pergunta do A., de olhar vivaço e sorrisinho irónico:
- E pode saber-se quando é que a sr.ª génio nos traz os rebuçados que prometeu?
- Oh, A., que comentário mais interesseiro! – respondi-lhe, com um largo sorriso, enquanto pensava nos rebuçados que já comprara, mas que me esquecera de levar e entretanto comera.
A aula chegou ao fim e após a saída de todos, o G., certificando-se de que ninguém nos estava a ver, veio ter comigo e segredou-me:
- Pressora, eu na próxima aula trago rebuçados.
- Oh, G., não é preciso, eu vou trazê-los! Está prometido, está prometido!- disse-lhe.
E, com uma expressão de secretismo cada vez maior, acrescentou:
- Mas, pressora, eu trago, sim. Aqui na escola há! – e esbugalhava os olhos de felicidade ao pensar nos rebuçados – e são baratos, pressora!
Acho que corei. Lá lhe tive de confessar que já os tinha comprado e já os tinha comido todos. O G., eu vi, franziu o sobrolho, entre a incredulidade e a condenação. Depois lá sorriu, como sempre faz, e atirou-me uma “até amanhã, pressorinha”.
Saí da escola com a intenção de ir ao Aldi comprar o raio rebuçados, mas mudei de ideias. Decidi comprá-los só no dia da aula. 
É que se os trago para casa, lá se vai a dieta que nunca consigo fazer.

3 de novembro de 2015

DIA 36 - A I.C. E O SEU DELÍRIO



O Raul é um mistério para algumas pessoas. Para aquelas que nunca o viram, naturalmente, ou que já o viram, mas não o conhecem. Mas o que dizer das outras, da I.C., por exemplo, essa grande colega. A mulher deve medir p'a cima de 1,64m! Ah e tal, mas porquê 1,64m?
- Porque eu também quero ser grande e meço 1,65m. Além disso, a crónica é minha e eu é que mando no que aqui escrevo.
Por ora, poucas são as pessoas que conhecem o Raul. Vou deixar o mistério a pairar mais uns dias e só depois o desvendarei, mas com toda a pompa que merece. Ainda assim, posso referir que a I.C. é uma das que mais tem privado com o animal. Já, inclusivamente, viajou com ele. Ora quando entrei na sala de professores, nem tempo tive para cumprimentar os excelsos colegas que a frequentam, pois fui logo abordada nos seguintes termos:
- Eh, anda cá! - era a colega I.C., que apesar do berço em que nasceu, com uma abordagem destas  mais parece que toda vida guardou cabras. Digo eu, não que alguma vez as tivesse guardado, mas por já ter  ouvido muito cabreiro gritar isto, lá na parte pobre da planície, que fica na extrema com a parte rica, onde, como calcularão, fui concebida e vi a luz do dia pela primeiríssima vez.
- Anda cá, já! - a gritaria é, novamente da mesma colega, já de cabeça perdida.
Serenamente, como é meu hábito:
- O que é queres, pá!! - disse eu, da porta da sala lá para o fundo, onde a I.C. se encontrava com o seu Ernesto.
- Quero fazer-te uma pergunta! - retorquiu. a I.C., quando tem alguma dúvida, não me larga. 
- Oh, diabo, olha que eu não sei tudo! - respondi-lhe, com a humildade que me caracteriza.
- Olha lá, tu tens um cão? 
A questão foi colocada de forma tão genuína, que, por segundos, até eu fiquei baralhada, só conseguindo alinhavar um "mas.." cheio de reticências.
- É que li uma das crónicas e fiquei com a sensação que tens um cão! - comentou.
- Oh, I.C., - disse eu, com os olhos esbugalhados de surpresa e preocupação -  é o Raul! 
- Ai, é verdade! - a gargalhada da I.C. ecoou na sala, abafando o burburinho alterado daquela gente que a frequenta. 
Eu ainda fiquei uns segundos boquiaberta, mas depois passou-me, que eu não sou muito dada ao pasmo.
Este pequeno diálogo, para que o percebam melhor, pode ser colocado nos seguintes termos:
- Eh, anda cá! - poder-me-ia ter dito a colega I.C., que apesar do berço em que nasceu, com uma abordagem destas  mais pareceria que toda vida guardou cabras. 
- Anda cá, já! - a gritaria poderia ser, novamente da mesma colega,  que já estaria de cabeça perdida.
Serenamente, como é meu hábito:
- O que é queres, pá!! - diria eu.
- Quero fazer-te uma pergunta! - retorquiria a I.C..
- Oh, diabo, olha que eu não sei tudo! - responder-lhe-ia eu, com a humildade que me caracteriza.
- Olha lá, tu tens um filho? 
A questão seria colocada de forma tão genuína, que, por segundos, até eu ficaria baralhada, a tentar perceber se teria ou não descendência, e só conseguindo alinhavar um "mas.." cheio de reticências.
- É que li uma das crónicas e fiquei com a sensação que tens um filho, fala lá num! - comentaria.
- Oh, I.C., - diria eu, com os olhos esbugalhados de surpresa e preocupação -  o filho de que falo é o teu! 
- Ai, é verdade, eu é que tenho! - a gargalhada da I.C. ecoaria na sala, abafando o burburinho alterado daquela gente que a frequenta. 
Eu ainda ficaria uns segundos boquiaberta, passar-me-ia depois, que eu não sou muito dada ao pasmo, afinal, aquela sala é uma amostra de Rilhafoles (*).
E eu cá gosto muito de sítios saudáveis.


......................................
(*)Convento de Rilhafoles, depois Hospital de Rilhafoles e, desde 1911, Hospital Miguel Bombarda

2 de novembro de 2015

DIA 35 - VARINHAS DE MARMELEIRO, OVELHAS E A DªF., QUE ESTÁ EM TODO O LADO


Subia as escadas, a custo, e a D.ªF., sempre alerta no seu posto de vigia, aventou-me um cumprimento. Virei o corpo todo, desde logo, porque gosto de estar inteira em tudo o que faço, e depois, porque as pontadas no dorso e no pescoço eram de tal ordem, que não conseguia virar-me como uma pessoa normal, um esforço sempre presente nos meus dias, mas que raramente tem sucesso. Será, portanto, um esforço  inssucedido, diria eu, se fosse a Mariazinha da Assembleia. 
Vendo-me naquele estado, a D.ªF. , não a Mariazinha, atira logo a graçolas: 'Tã pressora e um marmelêre? Perspicaz como sou, percebi logo que ela não me estava a perguntar pela árvore que dá os marmelos e muito menos a sugerir-me que arranjasse uma. O que ela queria, sabia-o eu bem, por isso, respondi-lhe: "Não será a varinha do marmeleiro??" A D.ª F. sorria por todo o lado. Imagino que imaginou toda a cena: eu, toda escaqueirada, a levar com uma varinha de marmeleiro nos costados, que era p'a ver se as dores passavam. 
A D.ª F. é uma doçura de pessoa.
Encaminhei-me para a sala. A aula era a última do dia, e depois de algumas horas intermináveis a ouvir moços, senti que a paciência estava, tipo, mesmo no limite. 
Robótica, palavra escolhida por um jovem aluno da aula da manhã para descrever a triste figura que fiz ao tentar escrever no quadro, lá me dirigi para a sala. O problema é que ninguém se consegue dirigir para uma sala, assim, numa só frase. Seriam necessárias páginas para descrever o que é o percurso pelo já famoso corredor. De pasta numa das mãos e guarda-chuva na outra, receava o momento em que alguma alminha, vinda sabe-se lá de onde, me cairia em cima, esmagando-me de vez as costelas, o que seria uma situação aborrecida, como calcularão. Vai daí, decidi pôr em marcha um mecanismo de defesa: afastar os moços com a sombrinha, que era o cajado e, no imediato, dei por mim pastora, a percorrer os campos, guardando o meu rebanho de ovelhas manhosas.



30 de outubro de 2015

DIA 34 - BOLACHAS, MALAGUETAS, E ALGUMAS "CÃEFUSÕES"

Há lá coisa melhor que começar o dia numa sala de professores?
 Sim! Claro que sim! Há, não uma, mas várias coisas melhores do que essa, no entanto, como o Euromilhões anda às avessas comigo, lá fui eu para a dita sala, onde a confusão já estava instalada:
- Olha lá, quem é que ratou as bolachas? - perguntou-me a L., com um ar de revolva contida.
Do que estava ela a falar, perguntei-lhe. Que alguém tinha ido à minha parte do cacifo, tinha aberto e ratado as duas bolachas do pacote. Que não estava certo, dizia-me e eu concordava, nem sequer me atrevendo a discordar.
Mas não se ficou por aqui, ouçamo-la:
- Como comi as tuas bolachas, fui comprar mais e ontem, para acompanhar o café fui buscar o pacote que restava e olha, nada!
Não está certo, de facto, dizia eu, entendendo perfeitamente a indignação da L. por alguém ter ratado as minhas bolachas, que ela me ia roubar!
Começaram as averiguações: a L. não poderia ter sido, a N. também não, porque essa nunca sabe nada, nunca vê nada, nunca rouba nada, só restava a A.R., seguramente a responsável por tão grave delito. E digo seguramente, porque como não estava na sala, não teve oportunidade para dizer que também não tinha sido ela. Ora se não negou, quem terá sido???
Ao olhar para o cacifo, tinha lá um presente: dois molhinhos de malaguetas, que agradeço, em meu nome e da D.G. . Graças a isso, temos agora o cacifo mais hot da escola.
Antes de sair, a N. deu-me o Raul, , de quem se despediu, assegurando-lhe que seria apenas um fim-de-semana e estaria de volta. Trouxe-o comigo e foi um sucesso. Desde a D.ª C., que ainda não o conhecia e ficou encantada e com um bocadito de inveja, que bem vi, à senhora que lava as escadas do meu prédio, com quem me cruzei à entrada e que comentou:
- Olha que bichinho tão bonito! - enquanto lançava um olhar embevecida.
Quem é o Raul?
Dele falarei num outro dia, até lá, fica o mistério.
Estarão todos a perguntar-se se eu hoje não falo dos alunos. Falo, pois: cá vai: está calado e presta atenção, vira-te para a frente, vai lá fora arejar as ideias. Pronto, já está!

29 de outubro de 2015

DIA 33 - A CARIDADE


Tudo estava a correr dentro da normalidade, quando três alminhas se começaram a engalfinhar por um motivo que, na altura, ainda me era desconhecido.
Como gosto de ser uma pessoa informada, vá de perguntar:
- Moças, o que é que se passa?!
- Oh, pressora, é a borracha. - respondeu-me uma pequena.
Como eu sei que as borrachas não falam, ignorei e prossegui nesta missão de elucidar jovens baralhados.
De novo, o burburinho, que já estava quase a beirar a conversa.
- Afinal, posso saber o que se passa, ou não? - perguntei, pensando que resposta dar, caso as pequenas me dissessem que não, que não podia saber o que se passava. Tal não aconteceu, pois a M. respondeu que elas estavam sempre  a pedir-lhe a borracha.
Enervei-me logo.
- De quem é a borracha?
A M. respondeu que era dela. 
- Aqui a tens. - e, enquanto respondia, encaminhei-me para a minha mesa e, do meu estojo, retirei duas borrachas, que coloquei à frente de cada uma das outras moças que estavam a perturbar a M. - Pronto, acabou-se a confusão! - disse, com ar decidido!
O E., de imediato, acompanhando as suas palavras de um devoto abrir de braços e de um sorriso matreiro, encerrou o momento.
- A pressora é a caridade!
Há lá coisa mais bonita para se chamar a um professor?

28 de outubro de 2015

DIA 32 - PERFUMES E BEIJOS

A aula correu bem. A colega S. fez o seu trabalho, eu fiz o meu, os alunos o deles.
Após o toque, o H. aproximou-se. Quase que lhe ia dar atenção, mas a colega S. desviou-me o olhar e a conversa. Minutos depois, foi ela própria que me faz sinal de que tinha alguém à espera para falar comigo. Era o H., claro, que ali ficara, educadamente, a aguardar. Devia mesmo ser uma coisa séria, pensei.
- Desculpa, H., distraí-me... diz-me! - comentei.
- A pressora tem o mesmo perfume que a minha pressora do 3º ano! - disse-me, enquanto, timidamente me sorria.
Fiquei baralhada, que é uma coisa que me acontece com alguma frequência e só me ocorreu um
- A sério?!
- Sim, quando a pressora se aproxima, lembro-me sempre dessas aulas do 3º ano!
Receosa, perguntei:
- E isso é bom ou é mau?
- É normal! - respondeu, enquanto se preparava para sair.
 Espero que a colega do 3ºano tenha sido uma referência positiva, caso contrário, terei de mudar de perfume novamente.
Mesmo ao fim do dia, já com o sol posto e a noite caída, saí da escola, com a colega C.M., depois de mais um TOP+, e encaminhei-me, na sua companhia, para o estacionamento.
A conversa cordial que mantínhamos foi interrompida por um tom aflito:
- Oh pressoras! Oh pressoras! - gritava um pequeno, sentado no passeio, na companhia de mais duas jovens da sua idade.
Olhámos e assim que percebeu que conseguira a nossa atenção, atirou:
- Ela está só a dar-me beijos! - enquanto se ria e à sua risada se juntava a das amigas.
Sem saber o que fazer, optámos pela sensatez: continuámos o nosso caminho, e deixámos o jovem entregue à sua sorte, naquela guerra de ternura.

23 de outubro de 2015

DIA 27 - A PÉROLA DO A.


Mais uma aula de teste. 08:25 da manhã e contorcem-se-me as entranhas com a histeria do corredor. Bom, bom, era uma mordaçazinha na boquinha destas criancinhas, penso, enquanto me levo até à sala 14, que é como quem diz, até ao fundo. Pelo caminho, um “com licença” mais áspero, uma ou outra paragem forçada para não ser abalroada pelos pequenos que, àquela hora da manhã, já estão com uma energia que em momento algum do dia consigo ter. E se dizem que eu sou enérgica!
Chegada que sou à sala, ainda antes do cumprimento e perante a agitação generalizada, perguntei aos moços, de forma retórica, se se lembravam da conversa que tínhamos tido na aula anterior, arrependendo-me de imediato, pois a resposta foi um “Siiiiimmmmmm” lancinante.
- Mais baixo , por favor.
À entrada, comecei a dar instruções sobre os lugares que deveriam ocupar. Reparo no A., o jovem místico-descarado de quem vos falei no dia nº4. Com um sorriso do tamanho do mundo inteiro e um olhar vivaço, tentava acomodar-se numa mesa ao fundo da sala, sendo vários os candidatos a quererem sentar-se perto dele. Percebi que havia uma pequena possibilidade de se estar a formar ali alguma marosca e decidi pôr mãos à obra:
- A., tu ficas aqui ao pé de mim! – pedi, com uma veemência tal, que o A. se encaminhou de imediato para o lugar indicado, enquanto, sorridente, e para quem quisesse ouvi-lo, fazia o seguinte comentário:
- A pressora é mesmo uma espertalhona!  
- Obrigada, A.  - agradeci, satisfeita. 
Afinal, quem é que não gosta de causar boa impressão?



22 de outubro de 2015

DIA 26 - MARMELOS E AZEITONAS. E BOLACHAS TAMBÉM


Hoje foi dia de teste.
Para evitar a avalanche de dúvidas, disse aos moços que apenas estaria disponível para esclarecimento de alguma questão nos 10 minutos finais.
É claro que foram pondo dedos no ar, é claro que eu ia olhando, fazendo uma aceno negativo, e a dúvida esvaía-se. Aconteceu assim com quase todos. Quase, pois o A., teimosamente, insistia em chamar-me. Fui-me sempre escusando, até que percebi que, para além de continuar com o dedo no ar, o olhar esse, começava-se-lhe a humedecer.
Contrariada, embora com o coração amolecido, perguntei-lhe o que se passava.
- Oh pressora- o tom era envergonhado – eu já soube isto, mas agora já não me lembro…
Ofereci-lhe um “sim…” expectante.
- Oh, pressora, qual é que é o fruto da oliveira?
- Marmelos! – pensei em responder, mas achei por bem não o fazer, até porque a criança estava com cara de quem iria acreditar em qualquer coisa que eu dissesse. Em vez disso, respondi:

- É a azeitona, A., é a azeitona. 

Chegada à sala de professores, sou interpelada pela L., que me disse:
- Olha tens de pôr ali mais uns saquinhos daqueles verdes...
Referia-se às bolachas que eu deixara no cacifo e que ela comera na tarde anterior.
Que eram mesmo boas, disse-me, até me perguntou onde as comprara, não que tivesse intenção de o fazer, mas para ficar informada, que a L. é rapariga que gosta de saber muitas coisas.

21 de outubro de 2015

DIA 25 - VIVALDI E AS CAIXAS OU NÃO SEI QUE TÍTULO PÔR


A manhã foi cinzenta, por isso vamos já para a tarde, e para a altura em que, após ter almoçado, me dirigi para a escola. Ainda fora do recinto, ouvi “olá pressora São”. Perspicaz, percebi logo que aquilo não era para mim, por isso ignorei o cumprimento, embora fosse, na altura, a única professora a passar. O que não percebi é que as petizas não chamavam histericamente pela professora São. Ouçamo-las:
- Pressora da conjugação!! Oh pressora da conjugação!! – gritavam com as suas vozinhas estridentes.
Fiquei baralhada, que é coisa que me acontece amiúde, mas pus-me, de imediato, à procura da relação entre a conjugação e quem eu sou. Depois de muito, percebi que queriam dizer “coadjuvação”, já que vou, semanalmente, coadjuvar a colega que lhes dá aulas. Nunca me tinham chamado um nome assim, mas isto é tudo uma questão de hábito e, confesso, até nem desgostei. Por isso, devolvi-lhes o cumprimento com um sorriso e uma mensagem, que não verbalizei, mas que era a seguinte: “Olá alunas, cuja loucura atinge limites bem para lá de razoáveis, embora fique um pouco aquém da loucura que tem esta vossa professora da conjugação.” No fundo, uma espécie de “vocês são parvas, mas eu sou muito mais.”
Disse ontem a duas das minhas turmas que, por muito que lhes custasse, quem manda dentro da sala de aula sou eu. Mas disse-o cá com uma calma, que os moços ficaram aparvalhados, esperando, quiçá, uma alteração no tom da voz ou algum esbracejar de irritação. Nada disso, que eu tenho modos.
Ouvia-se o silêncio e disse-lhes que era apenas o que queria ouvir dali por diante. Mas estava a brincar, também permito, sobretudo agora, com a chegada dos dias invernosos, que se ouça um espirro aqui ou ali, ou algum inesperado sorver de ranho. Está bem de ver que não lhes disse isto, não vão eles começar a fingir constipações e termos o caldo entornado.
Que sim, diziam os pequenos, abanando a cabeça, não se atrevendo a quebrar o silêncio exigido, por, seguramente, recearem, alguma medida tresloucada que pudesse tomar. Depois do breve discurso, começaram a trabalhar e, só para os martirizar, fizeram-no ao som de Vivaldi, que é para aprenderem a ter maneiras.
Armada aos cágados, que é coisa de que também padeço, perguntei, como quem lança um desafio impossível:
- Quem me disser quem é o compositor… - e não pude concluir. Felizmente. Até porque tinha em mente uma oferta choruda. Ora, quem me interrompeu foi o A., a quem vou dar a palavra:
- É Vivaldi, pressora, “As quatro estações” e esta é a da Primavera.
Eu cá não me fiquei e disse logo, com uma voz entre cínica e piedosa, mas mais para o cínica:
- Que pena, A., perdeste a oferta que te ia fazer… eu só perguntei o nome do compositor…


Quanto ao resto, há a registar que a escola anda numa roda-viva e só se fala de chouriças e de caixas. Mal entrei no bar, a Dª V., de dedo apontado na minha direcção, vociferou, vá,  disse até com alguma calma:
- A professora N. não andava a roubar caixas!
Perante uma afronta desta envergadura, não me fiquei e respondi-lhe logo:
- Boa tarde, D.ª V.  – oferecendo-lhe o meu melhor sorriso. Depois, acrescentei que só escrevi o que me disseram e que quem me disse ainda não negou que a professora N. andou no “gamanço” de caixas de cartão, para fazer sabe-se lá o quê.
Aliás, D.ª V., se me está a ler, ouça o que a professora N. disse na sala de professores a quem a quis ouvir, que não era o meu caso, mas fui obrigada a isso, já que estava muito próxima dela:
- Já viram isto, hoje de manhã, o Sr. D. revistou-me!
Ora, D.ª V., quando é que se revista alguém? Eu respondo-lhe: quando há fortes indícios de que essa pessoa ande a subtrair pertences alheios.
Ainda tem dúvidas? Pois eu cá não tenho e não posso, não quero, nem seria justo não felicitar o Sr. D. pelo zeloso trabalho, em prol dos bens que são de todos.


20 de outubro de 2015

DIA 24 - O MISTÉRIO DA CASA VIGIADA OU TERÁ A E.C. TEM ALGO A ESCONDER?


Os cacifos continuam a dar que falar e há pessoas que são invejosas. Já imagino a indisposição que esta afirmação está a causar, mas não sou de meias palavras e há que ser pegar o boi pelos cornos, esperando não bater com eles na parede. Há quem não possa ver um cacifo em condições. Começa logo “ai jesus, que eu também quero”. Aqueles que não disfarçam nada e que fazem grande alarido, são inofensivos: muito grito, muito grito, mas espremida a conversa, pouco sobra. O problema são os outros, que passam despercebidos. Afáveis, gostam de guardar uma certa distância, que nunca assumem, mas que muito prezam. É desses que vou falar, nomeadamente da colega E.C. e do seu ar simpático e cordial e do seu riso fácil. Pois se a E.C. é tudo isto, por que razão há-de ser tanta qualidade um problema?? Simples, caros leitores, é que atrás de tanta amabilidade esconde-se esse sentimento medonho que é o da inveja nunca assumida. E a colega E.C. padece desse mal, tanto que, quando menos se esperava, eis que nos espetou a todos uma facada, movendo o punhal em círculos e provocando, não sangue ou estrebuchamentos , mas a enigmática questão:
- De quem é este cacifo?! – questão de todos, com o sentimento de traição a bailar-nos no olhar.
Ninguém sabia.
Nada de novo, afinal nunca ninguém sabe nada nesta escola, quando se trata de cacifos.
Arregacei as mangas e pus-me à coca, que é como quem diz, perguntei à primeira alminha que passou a quem pertencia tão vigiada casa. Disse-me, “Ah, isso é lobby dos de Inglês”. Ora o que não falta são professores de Inglês, pelo que, insisti, mas de quem?? A alminha, cujo nome não refiro, por não me recordar, pedindo, desde já, perdão, a alminha, dizia eu, abriu a porta e verificou tratar-se da colega E.C. Eu cá, levei logo a mão ao peito com a admiração que me tomou e fui passando palavra, que eu cá não gosto de me admirar sozinha. A cada um que contava, era uma manita que ia ao peito. Pasmo geral, portanto.
É claro que começaram logo a surgir questões, que esta gente pensa muito:
- Para que quer a E.C. uma casa vigiada??
O J.M. fez logo uma associação entre este mistério e um caso antigo de um arquitecto, que fez não sei o quê com não sei quem, no seu escritório num sítio cheio de árvores, daquelas que dão amoras. A E.C. disse logo que não, que estava muito enganado, enquanto a vozinha lhe tremia e um sorrisinho lhe pairava no rosto, que entretanto corara. Como podem ver, a resposta é pouco convincente e ficámos assim com dois mistérios.

Quanto à inveja da colega E.C., posso dizer-vos, é mal que se pega. Agora ando aqui que não me aguento por não ter uma casa tão sofisticada quanto a dela.

19 de outubro de 2015

DIA 23 - CHOURIÇA E PEIXE FRESCO


Agora soa um zumzum lá pela escola de que fiquei com a chouriça e nem a partilhei com ninguém. Ah, povinho este, parece que anda tudo morto de fome! Pois que se fique a saber que a chouriça está intacta, em lugar seguro. E que não me venham pedir explicações, que a chouriça é minha e faço com ela o que eu quiser.

Segunda-feira, fim da primeira aula, senti que estava pronta para outro fim-de-semana. Não se pense que não gosto dos petizes, gosto, mas… como dizê-lo… há um quê de parvoíce generalizada entre eles, que me anda a dar umas certas agasturas.

A A., por uma qualquer razão desconhecida, não conseguia conter o riso. Achei por bem fixar estes belos olhos castanhos com que a Providência me presenteou na sua expressão divertida e perguntar:
- Posso saber o que se está a passar? – eu sirvo-me sempre da delicadeza, até porque poderia estar a dar-se alguma coisa que não me dissesse respeito e se há coisa de que não gosto é de me imiscuir em contas que não são do meu rosário.
- Nada pressora! – e, num ápice, deu um saltinho na cadeira, gesto muito falho de graciosidade, que a deixou direita que nem um fuso, desaparecendo do seu rosto qualquer sinal de felicidade.

À tarde, estava eu a tentar vender o meu peixe, fresquinho, está bem de ver, quando percebi que a parvoíce generalizada me estava molestar. Como já haviam sido feitos inúmeros esclarecimentos sobre as consequências que a parvoíce generalizada tem sobre mim, achei por bem passar à acção e pedir ao F.V. e à R. que saíssem da sala. Mas não se pense que houve alarido ou alguma animosidade, nada, apontei para ambos, que estava lado a lado, numa conversa que parecia ter um nível de interesse superior ao do meu peixe, e fiz-lhes sinal para que saíssem. O F. franziu o sobrolho e pareceu-me indignado, seguramente consigo próprio por não estar a aproveitar o pitéu que eu lhes estava a oferecer; já a R. teve a expressão de quem parece já estar habituada.

Ao toque, os moços saíram e, na pacatez da sala silenciosa, pensei nos meus pais e carga de porrada que me deveriam ter dado quando lhes comuniquei a decisão de querer ser professora.

16 de outubro de 2015

DIA 22 - A CHOURIÇA DA COLEGA N.

Entrei na sala de professores e reparei que algo estava pendurado no meu cacifo. Digo algo, porque a falta dos óculos não me permitiu identificar, de imediato, a chouriça que alguém, amavelmente, me havia deixado à porta.
Antes de tudo, quis logo agradecer convenientemente tão nobre oferta. Quem foi, quem não foi… cheguei à conclusão que aquilo só poderia ter sido uma bênção divina, já que nenhum colega assumia a autoria do generoso delito, garantindo-me não ter sido nenhum deles e assegurando-me desconhecer o culpado.
Imaginei logo o mais belo querubim, sensibilizado com a lágrima incessante do meu menino,  a descer, paulatinamente, das alturas e a pendurar, com a sua delicadeza angelical, a chouriça na porta do cacifo.
Duvidei da N., que andava a roubar caixas de cartão, e contei-lhe das minhas suspeitas. Nem pensar! Achas?, dizia-me com um sorriso de até posso ter sido eu mas nunca te vou dizer.

Eis que a L.C. me começa a fazer umas caretas estranhas, ia já a responder-lhe que não lhe admitia aquele tipo de comportamento, quem em nada a dignificava, quando, de uma forma mais clara, se afirmou conhecedora do autor do caso chouriça.
- Não me escondas nada - disse-lhe logo, satisfeita por, finalmente poder agradecer convenientemente a oferta. E ela dizia que não, que não me esconderia nada, que tinha sido a R.G.. Que tinha e certeza e tudo e, repentinamente, começou a falar do estado do tempo e da chuva que nunca mais vinha. Estava a disfarçar, porque deu entrada na sala a R.G. Dirigi-lhe a palavra, agradada, e pus um trejeitozinho de ironia:
- Obrigada, R.! E que bem que cheira a tua chouriça!
O barulho que a moça fez a dizer que não tinha sido ela! Jurava a pés juntos que nem pensar!
Ora, comecei a sondar a D.ª F., porque essa vê tudo. Aqui vai a reprodução possível da espécie de diálogo que mantivemos:
-  A professora, acha qué sê??
- Acho!
Ma nã sê!
- Vá lá, D.ª F., eu dou-lhe metade!
A D.ª F. ainda hesitou, a chouriça cheirava bem… mas nada. Não se descoseu.
Bem, aproveitei para pedir à N., que já tinha enchido o carro com as caixas roubadas, que passasse a ferro o napperon do meu cacifo, com o seu ferro de engomar, que trouxera propositadamente para o efeito, tarefa que cumpriu na perfeição e que aproveitei para fotografar, de chouriça pendurada no braço. Bem sei que se trata de uma medida ligeiramente radical, mas tive de a tomar, pois já havia muita cobiça naquela sala.
Pensarão que desconheço o benfeitor da chouriça. Enganam-se.
À saída da escola, já fora de portas, junto ao carro, fui abordada por alguém, cujo nome jamais revelarei, que me contou tudo, não sem antes me fazer jurar a pés juntos que aquela informação ficaria apenas entre nós.

Jurei o que tinha a jurar e, graças a isso, apresento aqui a minha gratidão à colega N., pedindo-lhe que traga o pãozinho e a vinhaça, para que eu possa fazer um pequeno lanche com a minha colega de cacifo.